domingo, 14 de junho de 2015

Brasileiros não querem melhorar o país. Querem melhorar as suas vidinhas medíocres

O povo brasileiro não quer melhorar o país. Brasileiros não querem qualidade de vida. Lutar por melhorias exige esforço, tempo e abnegação. E brasileiros não querem desistir de suas convicções para isso.

Esqueçam os últimos protestos. Eles não eram para exigir melhorias. Como foram passeatas midiáticas, tudo não passou de crianças birrentas pedindo para tirar de cena a bruxa malvada e seus capangas. Como uma novelinha: tira-se o vilão estereotipado e tudo estará bem. Nada além disso.

E os brasileiros fazem para driblar a má qualidade devida? Pois há décadas estamos nessa verdadeira m*rda de vida e ninguém se mobilizou de fato para melhorá-lo.

Os brasileiros infelizmente resolveram lançar mão do egoísmo. Dois famosos provérbios se tornaram meta para a população, que em crise não quer saber do bem estar alheio, ainda mais em tempos de ódio anti-humano:

- "Amigos, amigos, negócios a parte"
- "Farinha pouca, o meu pirão primeiro"

E assim brasileiros simplesmente vão fugindo de profissões menos prestigiadas, ao invés de lutar para que a dignidade atinja todos os níveis humanos.  Fulano simplesmente faz o seu curso, tira o seu diploma e se tranca no escritório esperando o final do mês o seu relativamente gordo salário para torrar com bobagens como cerveja, televisores e viagens inúteis. E o resto que se exploda.

Isso explica porque um gigantesco rebanho de asnos tem entrado nas faculdades. Embora posar de sábio seja muito bom ara o ego, não é o conhecimento o verdadeiro motivo a levar todos para conquistar um diploma. Todos sabem e estão carecas de saber que esse valioso pedaço de cartolina é que fará com que os números dos depósitos periódicos nas contas bancárias ultrapassem os 4 dígitos por mês.

E vemos que a entrada nas faculdades não está fazendo ninguém ficar mais inteligente. Pelo contrário. A quantidade de analfabetos funcionais de nível superior e ta grande que  mercado de trabalho se apressou a desvalorizar os diplomas de graduação, preferindo outros títulos como mestrado, doutorado, MBA e PHD. 

E não pensem que não há burros correndo atrás desses títulos. Eu mesmo conheço pessoalmente um burro, burraldo mesmo, uma anta difícil de conversar que está para virar doutor (basta fazer o que patrocinadores como George Soros, o mecenas-mor das faculdades brasileiras, querem). Mas vou poupar o nome do "aspirante" a doutor pois não é intenção minha prejudicar ninguém. Embora ache que ele esteja tomando o lugar de quem realmente é mais capacitado a ter doutorado. Mundinho falso e injusto.

Este jeitinho de fugir dos problemas sem resolvê-los tem sido responsável pela estagnação em que se encontra o país. No final vamos virar uma nação de - falsos - doutores com vagas sobrando em outras profissões que com a força do hábito poderão se extinguir. Não teremos mais lixeiros, padeiros, mecânicos. E quem fará as tarefas destinadas a estas profissões?

Enquanto isso, a enorme quantidade de pessoas nas faculdades e com quilos de diplomas nas mãos dará a ilusão de prosperidade, mas ao mesmo tempo vai emburrecendo ainda mais a população brasileira que de tão medíocre só tem 3 metas na vida, após a profissionalização: álcool, futebol e fé religiosa. Claro que uma população que só tem essas três coisas na cabeça não quer melhorar o país. Basta entrar para uma faculdade e arrumar um bom emprego e continuar relinchando por aí.

terça-feira, 9 de junho de 2015

O ódio humano cresce e ignora limites

Ontem o que foi postado em meu feed de notícias do Facebook foi um horror. Por causa de uma foto tirada na Parada Gay, religiosos e ateus praticamente saíram na porrada verbal, cada um defendendo sua opinião particular como se fosse um patrimônio a ser preservado. 

Mas não e só nesse assunto. Tem sido assim nos últimos dois anos em qualquer tipo de conversa, sobretudo quando assunto é política, religião ou entretenimento.

Muitos tentam responsabilizar a internet, outros tentam responsabilizar o cenário político atual. Mas eu dou meu diagnóstico: estamos cada vez menos racionais. Pensamos menos e acreditamos mais. Aprendemos a ser ignorantes porque exige menos esforço e preserva nossos interesses, vários deles supérfluos.

Ao invés de analisarmos as questões, tentando entender se o ponto de vista a nos ser jogado na cara está certo ou não, já julgamos de antemão a sua inviabilidade, pelo simples fato de não ser a "nossa" opinião.

Muitas pessoas acabam transformando suas opiniões em patrimônio. Crescem acreditando em certas ideias e se beneficiam com elas. Este beneficio - geralmente falso, típicos de zonas de conforto -  os faz transformar essas opiniões em patrimônios e quando aparece alguém para invalidá-las, os donos das opiniões as agarram com firmeza, bradando feito leões famintos se recusando em abrir mão delas.

É esta a origem de muitas brigas, em que as pessoas preferem defender as opiniões, gostos, ideias e costumes que lhes dão conforto e alegria do que analisá-las para ver se estão corretas ou não. É a raiz não somente dessas discussões mas de muitos problemas que existem na sociedade. A teimosia em defender absurdos tem sido muito útil para manter privilégios de lideranças e preservar injustiças, além de criar um monte de preconceitos.

E usar a lógica, o raciocínio, parece desagradável para a maioria dos brasileiros, já pouco afeita a intelectualidade e que considera a credulidade, ou melhor, a confiança (que eles chamam de"fé") como sua maior qualidade. Raciocinar, além de exigir esforço, exige abnegação (a saída das zonas de conforto). Para muitos não parece bom se livrar de valores e prazeres aprendidos como sendo "benéficos" durante muitos e muitos anos. Daí que muitos preferem continuar como estão, defendendo o que acreditam.

Não sabemos em que tempo isso vai parar, mas sabemos como: quando as pessoas aprenderem a raciocinar e considerarem a possibilidade de largar alguns pontos de vista que defendem, como crianças a largarem suas chupetas quando chegam a uma determinada idade. E crianças bem birrentas!

Que sabe a origem dessas brigas todas está na teimosia de querer "usar chupetas" por muito mais tempo?

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O mercado é mesmo bom?

ESPREMENDO A LARANJA: Ótimo texto que merece ser lido com atenção. É um assunto complexo que merece amplo debate, mas que deve levar em conta que o mercado não é assim tão miraculoso como alega a direita. Estamos cansados de ver que toda vez que entra dinheiro, vem confusão.

O mercado é mesmo bom?

Por Luis Felipe Miguel, no Blog da Boitempo*

Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita brasileira – e não só brasileira: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Enquanto o Estado premiaria os “preguiçosos” por meio de suas políticas sociais, o mercado daria a cada um a recompensa justa pelo seu esforço. É o que diziam as faixas, nas manifestações de março e abril, que reivindicavam o direito daqueles que “trabalharam muito” a se dessolidarizar dos pobres e marginalizados. Por vezes, como quando denuncia as cotas nas universidades, este discurso ainda é tingido por um racismo indisfarçável.

É um entendimento que está presente mesmo em agentes que, à primeira vista, parecem mais motivados por uma pauta retrógrada no âmbito dos direitos individuais. Basta lembrar de Eduardo Cunha. Chegou à presidência da Câmara anunciando que barraria qualquer medida em favor do direito ao aborto, mas tratou de logo encaminhar, a todo vapor, a sacralização do financiamento privado de campanhas, seu principal interesse na “reforma política”, e o desmonte dos direitos trabalhistas, aprovando o PL 4330/2004. Jornalistas e advogados conservadores não tardaram a anunciar as vantagens da “terceirização”, que consistiriam exatamente em reduzir a regulação estatal das relações de trabalho, permitindo que a lógica do mercado opere mais livremente. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Menos direitos trabalhistas gerariam mais lucro, logo mais riqueza, mais trabalho e maiores salários.

Será que é mesmo assim? Um conhecimento, mesmo que superficial, da história permite duvidar. Antes de que os trabalhadores conseguissem se organizar nos sindicatos e obter o reconhecimento público de alguns direitos, imperavam a jornada de 14 ou 16 horas, o trabalho infantil, a insalubridade e o salário de fome, sem descanso semanal e sem férias remuneradas. Eram essas as condições no século XIX. Engels as descreveu vividamente em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, mas quem tiver ojeriza pelo autor pode buscar qualquer historiador liberal sério que encontrará um retrato similar – efeito de um mercado de trabalho plenamente desregulado.

A ideia de que justiça é entregar a cada um aquilo a que seus méritos individuais dão direito entrou em certo senso comum, mas não é isenta de problemas. Afinal, “mérito” não é uma característica inata, mas fruto de um mundo social que valoriza certos atributos. A obtenção de tais atributos também depende centralmente das circunstâncias em que cada pessoa se encontra. E caso se prefira enfatizar os talentos naturais, não custa lembrar, como já anotava John Rawls, que eles são dádivas que recebemos gratuitamente, não configurando nenhuma forma de mérito subjetivo.

Mercado e justiça

Mesmo sem questionar o discurso da meritocracia, porém, é difícil aceitar a ideia de que o mercado realiza algum padrão de justiça, recompensando qualidades e punindo defeitos. A possibilidade de agir com eficácia no mercado depende sobretudo do controle de recursos que os próprios mecanismos de mercado distribuem de forma muito desigual e que refletem uma série de acasos, a começar pela loteria do nascimento. Ainda há quem pense que o fato de que os ricos são quase sempre filhos de ricos é uma demonstração da superioridade do material genético dos privilegiados, mas evidentemente é bem mais razoável aceitar que a relação causal é outra. O mercado não premia o mérito, seja lá o que isso for.

Até o mais competente defensor da ideia de que o mercado realiza um padrão de justiça, o falecido filósofo estadunidense Robert Nozick, reconhecia que tal justiça dependia de um momento inicial de igualdade de recursos. Uma vez que esse momento nunca existiu, toda distribuição posterior deve ser considerada injusta (conclusão de que Nozick fugia, mas que é inescapável). Uma proposta de produzir tal estado inicial ideal aparece no “socialismo de mercado” apresentado por John Roemer, em que o capital seria redistribuído equitativamente a cada geração. Deixando de lado as múltiplas dificuldades técnicas do projeto de Roemer, cabe observar que muitas das oportunidades dos filhos de famílias privilegiadas, como o acesso a bens educacionais e a redes de contatos, não dependem da herança que receberão e não são atingidas pela medida.

De resto, a “justiça” que o mercado realizaria ecoa uma visão de responsabilidade individual que nega espaço à solidariedade social. Uma aposta errada pode arruinar de maneira definitiva as possibilidades de vida de uma pessoa, mas isso não seria problema, já que cada um é responsável por seus próprios atos. E uma vez que se considera que cada um tem sua chance, não há nenhum compromisso em relação àqueles que estão em situação pior. Trata-se de uma visão de justiça que, além de fundada no pressuposto indefensável da absoluta autonomia decisória dos agentes, conduz a uma atomismo social bem pouco atraente. Por isso, muitos apologistas do mercado adotam um discurso diverso e admitem que ele pode gerar injustiças. Mas esse seria o preço a pagar pela garantia da liberdade, que o mercado produziria.

Mercado e liberdade

É corrente, nesse tipo de discurso, a oposição entre o Estado, esfera da coerção, e o mercado, espaço de interações livres e voluntárias. De fato, o cumprimento da lei é (ou pretende ser) obrigatório: não depende de minha vontade usar cinto de segurança ou pagar os impostos. Já no mercado, não sou coagido a comprar ou a vender nada; só me engajo nestas trocas se julgo que serão, de alguma maneira, vantajosas para mim. Trata-se, é claro, de uma visão ancorada num entendimento radicalmente negativo da liberdade, em que a autoridade política conta como coação, mas a necessidade material, não. Na verdade, as trocas livres e voluntárias do mercado ideal só existem nos modelos de seus ideólogos. A maior parte das pessoas age constrangida por necessidades prementes e esse é um elemento incontornável do funcionamento do mercado capitalista. Não por acaso, o capital se opõe a tudo aquilo que reduz a situação de privação do trabalho – acesso à terra, renda básica universal, pleno emprego.

Pelo menos o mercado permitiria expressar a intensidade das preferências individuais. Também é clássica a oposição entre o direito de voto, que vale o mesmo, quer eu deseje muito a vitória de um candidato, quer eu seja quase indiferente, e a troca mercantil, em que eu me disponho a pagar menos ou mais por um produto conforme minha vontade de possuí-lo seja menos ou mais intensa. Mas tal observação, que pode ser verdadeira para cada indivíduo, é falaciosa para o coletivo. Quanto mais dinheiro eu possuo, menor a utilidade marginal de cada real, logo com mais liberalidade ele pode ser dispendido. Por isso, ricos adquirem bens mesmo com preferência pouco intensa por eles, ao passo que pobres não adquirem mesmo aquilo que desejam fervorosamente. Em suma – e ao contrário da tradição liberal que opõe os dois valores –, qualquer medida de liberdade será enganadora na ausência de um patamar mínimo de igualdade.

Cabe lembrar que o quadro ainda é mais complexo, uma vez que as próprias preferências que seriam expressas “livremente” refletem assimetrias de mercado. O ambiente social em que as pessoas definem suas prioridades e anseios é influenciado pelos discursos de diversos agentes, entre os quais se encontram, com destaque, a publicidade comercial e a mídia por ela influenciada. No mercado, se manifestam preferências que o mercado busca induzir – a começar pela ideia de que o consumo é o caminho tanto para a solução dos problemas quanto para a autorrealização humana.

Se o mercado não se realiza como o espaço de liberdade que alguns de seus defensores desenham, ao menos ele seria crucial para garantir a liberdade na sociedade como um todo. De acordo com a visão pluralista, desenvolvida na metade do século passado e ainda vigorosa, sociedades de mercado permitiriam uma dispersão dos recursos de poder – em contraste com as economias estatistas, em que poder político e poder econômico estariam fundidos. Mais uma vez, tal narrativa não passa pelo crivo da investigação crítica. O poder econômico se transmuta facilmente em poder político, por meio do financiamento de campanhas, do lobby, da influência sobre a opinião pública e, enfim, da dependência estrutural que o Estado tem em relação ao investimento privado. Ele sobrevive da arrecadação de impostos, que reflete o nível de atividade econômica, que, por sua vez, reflete o nível de investimento. Com isso, os governantes, quaisquer que sejam suas simpatias políticas, precisam introjetar os interesses do capital, garantindo uma situação que estimule a manutenção de taxas elevadas de investimento econômico. Não é necessária nenhuma conexão especial com a elite política, nem a apresentação de algum tipo de chantagem ou ameaça por parte da classe capitalista; a estrutura econômica garante que seus interesses receberão uma atenção privilegiada por parte dos detentores do poder de Estado.

Uma linha auxiliar do argumento de que o mercado protege a liberdade foca em seu suposto caráter antidiscriminatório. Há quem afirme, por exemplo, que os mecanismos de mercado combatem o racismo (ou a discriminação contra pessoas com deficiência) melhor que qualquer política pública: firmas que se recusassem a contratar negros ou a vender para negros perderiam bons empregados ou bons clientes e seriam punidas na competição com seus concorrentes. É desnecessário dizer que isso não tem nenhuma comprovação empírica. Pelo contrário, regras que coíbam a discriminação racial se mostraram cruciais para impedir que as empresas respondam ao incentivo a práticas racistas que a existência de um público racista fornece. E como o racismo não é um desvio de caráter, mas um conjunto de dispositivos estruturais, ele faz com que os negros sejam marginalizados e tenham menor potencial para se tornar “bons empregados” ou “bons clientes”. Os remédios de mercado para o combate ao racismo simplesmente não funcionam.

Outras formas de preconceito também encontram incentivos em práticas de mercado. A manutenção das mulheres na posição de donas-de-casa e/ou de objetos sexuais favorece inúmeras indústrias, de eletrodomésticos a cosméticos, e é pesadamente reforçada pelo discurso publicitário. O sexismo aberto e renitente da publicidade reforça estereótipos tanto ao se dirigir às mulheres quanto ao se dirigir aos homens, a tal ponto que, ainda nos anos 1980, a solução proposta pelo Ombudsman dos Consumidores da Dinamarca para lutar contra ele foi a proibição da representação de qualquer ser humanos em anúncios. Na luta contra a desigualdade de gênero e os estereótipos contrários à emancipação das mulheres, o mercado certamente tem atrapalhado mais do que ajudado.

Mercado e progresso

Abandonados os valores mais elevados, como justiça ou liberdade, a defesa dos benefícios do mercado recua para vantagens mais instrumentais, como a “inovação” ou a ampliação geral da prosperidade. A concorrência e a busca do interesse próprio seriam os motores do progresso; sem elas, estaríamos fadados à estagnação. Se o colapso do modelo soviético, no final dos anos 1990, serve hoje de ilustração dessa tese, não custa lembrar que em outros momentos históricos um veredito oposto aparecia como igualmente óbvio. Quando escreveu seu libelo ultraliberal O caminho da servidão, em meados dos anos 1940, Friedrich Hayek justificou a superioridade do mercado unicamente em termos políticos, julgando que não valia a pena disputar a crença, amplamente dominante, de que a economia centralizada era mais eficaz.

A racionalização do processo produtivo parecia evitar vários dos problemas do jogo do mercado capitalista, como sua vulnerabilidade a crises cíclicas, e promover um desenvolvimento mais acelerado e constante. O fato de que hoje o planejamento de tipo soviético tenha sido desmoralizado não autoriza a ignorar os problemas associados à gestão puramente mercantil da economia, como as tendências à crise e à concentração da riqueza ou os elevados custos sociais e ambientais que implica. Uma prosperidade que é acompanhada pelo crescimento da pobreza, como ocorre há décadas no mundo capitalista, é a ressurreição da frase memorável do nada saudoso general Médici, que dizia que “a economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Ao mesmo tempo, é reconhecido que os fundamentos da inovação tecnológica não são financiados pelo mercado. A pesquisa básica depende quase que integralmente de fundos públicos, mesmo nas economias capitalistas mais ricas. E nem tão básica: muito do que há de mais emblemático na “revolução tecnológica” atual nasceu diretamente da pesquisa sustentada pelo Estado, da biotecnologia à informática. Como escreveu a pesquisadora Mariana Mazzucato, da Universidade de Sussex, “todas as tecnologias que tornam ‘inteligente’ um iPhone foram bancadas pelo Estado, da tela sensível ao toque ao sistema de comando de voz Siri”.

Talvez seja difícil imaginar uma sociedade sem mercado. Talvez algum tipo de regulação mercantil da atividade econômica seja necessário, não “para sempre”, mas pelo menos até onde a vista alcança. Mas o projeto de uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais livre – em que as pessoas tenham ampliado o exercício da sua autonomia – passa certamente pelo fortalecimento de um espaço abrangente de relações desmercantilizadas.

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* Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde editama Revista Brasileira de Ciência Política e coordenam o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O pior livro de História de todos os tempos

Temos que tomar cuidado com os livros de História que escolhemos para estudar. Em alguns deles, cada um prefere colocar seu ponto de vista pessoal e impossibilitar a compreensão real dos fatos, resultado muitas vezes em preconceitos que podem gerar graves danos sociais.

Aproveito ara alertar sobre um livro que muita gente anda difundindo como um revelador livro de História, mas que possui conteúdo bem absurdo. Pode ser considerado o pior livro de História de todos os tempos, junto com aquela asneira escrita por Leandro Narloch, muito mais interessado em destruir mitos para exaltar outros mitos.

O livro se chama Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Foi escrito pelo médium charlatão Chico Xavier roubando o nome do famosos escritor  Humberto de Campos, que nunca iria escrever um livro recheado de asneiras. 

Xavier queria se vinga de uma critica que sofreu quando o escritor ainda estava vivo e foi orientado a roubar o nome, fingindo receber de seu espírito mensagens de conteúdo que mistura religião com falsa intelectualidade. Lembrado que Campos era ateu quando vivo e nunca iria se converter de uma hora para a outra ao igrejismo dos católicos enrustidos que pensam que são "espíritas".

O livro em si deveria ser bastante revelador. Atribuído às orientações das mais altas personalidades espirituais, ele não vai além de uma confirmação dos livros de História disponíveis na época, com exaltação dos mitos cultuados pelos políticos da época. 

Se fosse escrito por seres realmente superiores, com absoluta certeza, ele desmentiria muitos mitos, revelaria o lado oculto de mitos históricos e mostraria muitas surpresas sobre a história brasileira. Em vez disso, narra tudo que já se sabia em forma de conto de fadas, como um Luzíadas* muito mal escrito. Ah, Xavier ameaçou fazer a sua releitura dos Luzíadas, mas um escândalo muito mal explicado que resultou na morte do sobrinho o fez desistir da empreitada.

O livro ainda tem uma carga enorme de Ufanismo, desprezando as outras nações, os outros povos, ridiculariza os espíritos, e pior: há traços claros de racismo, machismo e xenofobia em seu conteúdo, mostrando que o "homem mais bodoso da face da Terra" não era assim tão bondooooso como vivem dizendo insistentemente até hoje.

Como um livro tolo como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, pode ser considerado um livro de História revelador? Ainda bem que somente os fanáticos devotos do médium enganador (que acreditam na sua infalibilidade) dão importância a esse livreco tolo, evitando que este fosse dotado pelas escolas para as aulas de História.

Se bem que nem como boa literatura o livro serve, pois nem mesmo traços da literatura de Humberto de Campos aparecem no livro, que não poderia ser escrito por outro senão um devoto católico que gostava de ler livros.

Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho é uma tolice que merece ir direto para a lata de lixo, e depois incinerado na mais alta temperatura. Não serve como livro de Historia, não serve como literatura de qualidade e muito menos como guia para a humanidade. E uma asneira que saiu da mente fraca de um farsante, ainda idolatrado por uma multidão de ingênuos. 

Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho é um livro que merece o  mais absoluto esquecimento. Para o bem do bom senso.

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*NOTA: "Os Luzíadas" era uma obra de autoria do poeta português Luíz de Camões que contava a viagem de Vasco da Gama às Índias, com inspiração na Odisseia de Homero, com bastante mitologia. É considerada uma das mais importantes obras da literatura portuguesa.